Piratas da Lua Cheia - Prólogo

Porão
Baús, barris e grilhões


Eliakim estava enjoado. O barco balançava de um lado para o outro muito devagar. Preso pelos pulsos à parede de madeira às suas costas, o garoto sentia farpas adentrarem a sua pele uma vez ou outra. Estava sem camisa, os marujos deviam tê-la retirado quando o prenderam. Do corte em seu rosto já não escorria mais sangue, mas uma ferida cobria quase metade do lado esquerdo do seu rosto, poupando apenas o seu olho castanho-esverdeado, arregalado ao observar o porão. O ferro das correntes, que prendiam seus pés ao chão do barco, estava velho e enferrujado. E há horas estava sem um gole d’água.

Algumas gargalhadas eram ouvidas acima deles e um barulho incômodo ecoava sempre que o barco oscilava de um lado para o outro. O porão onde Eliakim estava ficava logo abaixo do convés onde os piratas cantarolavam e gritavam mar afora. Lá embaixo, no entanto, o clima não era de gargalhada. Nem sequer um sorriso.

Ratos passeavam entre as pernas magras de Eliakim, que já não sentia nojo. Eram como seus companheiros. Eles passavam entre os barris de pólvora e os baús trancados com enormes cadeados. Havia comida em alguns caixotes de madeira, o que os atraía lá para baixo.

Também preso pelos pulsos havia um homem negro. A cor de ébano da sua pele ainda tinha um brilho saudável, mas pelas rachaduras em sua boca era possível perceber que não tomava água há algum tempo. Seus braços eram fortes, assim como seu tórax — que também estava à mostra, assim como o do garoto. Seu abdome parecia ter sido esculpido por horas e horas de exercício. Porém, devido à desidratação e a fome, o homem já não tinha mais um ar tão imponente. Era careca e em sua nuca jazia uma tatuagem, muito mal feita. Tinha o formato de uma âncora.

— É assim que os piratas de Moukío marcam os escravos que serão vendidos — disse o negro quando percebeu o olhar de Eliakim vidrado no desenho que ele carregava na cabeça. Apesar das rachaduras, o garoto viu que o cativo tinha lábios muito carnudos e rosados. Combinavam com seus olhos grandes e pretos.

Eliakim não disse nada. Desviou o olhar para o outro lado do porão. Atrás de alguns caixotes de comida, um senhor estava deitado no chão. Tinha uma barba longa e branca, com muitas falhas. A cabeça tinha poucos fios de cabelo e, pela boca um pouco aberta, era visível que vários dentes faltavam. Os que ainda restavam estavam amarelados ou podres. Vestia apenas um calção marrom, que escondia suas partes íntimas. Também estava sem camisa, como os outros dois cativos. Mas não estava preso pelos pulsos. Nem pelos pés. Estava solto. Soluçava muitas vezes e não se levantou nem por um momento para que Eliakim pudesse distinguir a cor dos seus olhos.

— Ele está louco — falou o homem negro ao ver que o garoto observava o velho no chão. — Deve ter bebido muito rum. Prefiro quando está dormindo... Não é muito amigável quando está acordado.

O garoto continuou observando o velho dormir. Imaginou se tinha sido capturado ou se estava ali por vontade própria, se fazia parte da tripulação do Capitão Moukío. Desviou o olhar para os caixotes e baús que estavam perto do corpo no chão. Ao lado deles, eram barris e mais barris de rum. Provavelmente o motivo de o velho estar no porão.

Gargalhadas soaram de cima dos cativos. O fim do dia estava quase chegando, pela cor alaranjada do céu que o garoto podia ver entre as frestas de madeira acima de sua cabeça. Os olhos fundos ainda conseguiam ver alguns pés calçando botas sujas de areia e sal da água do mar. Respirou fundo e olhou novamente para o homem que seria vendido como escravo.


— Ei — sussurrou. — Precisamos sair daqui.



***
ESGOTADO.
Copyright © 2009 by Emerson Machado

Comentários