Luar

Conto selecionado para a coletânea "Novos autores curitibanos", do Litercultura - Festival Literário 2013, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.

Marieta estava sentada sob a luz do luar no pequeno banco do jardim. Ela tinha os cabelos grisalhos, algumas rugas no rosto e mãos com algumas manchinhas roxas. A pele muito branca era pelo fato de nunca tomar sol. Usava um vestido azul, quase tão escuro quanto a noite. A Lua não estava sozinha no céu, ao seu lado brilhava um oceano inteiro de estrelas. E ao lado de Marieta estava Fernando, seu marido.

Fernando observava o clarão do céu com pequenos óculos redondos sobre o nariz, que era bem grande. Suas orelhas também eram maiores que o normal e alguns fiapos grisalhos de pelo saíam delas. Em sua cabeça estava uma boina, amarelada pelo tempo. Sua roupa, de um xadrez vermelho e preto, cheirava à naftalina. As rugas em seu rosto eram mais visíveis que em Marieta, as manchas escuras na mão também eram mais fáceis de serem percebidas. O tom da pele morena agradava os olhos da esposa.

— Pensei que estivesse cansado demais para vir essa noite — disse Marieta, colocando a mão direita sobre o ombro do esposo. — Não quis incomodá-lo.

— É a única coisa que podemos fazer juntos aqui — Fernando olhou para os lados como se tivesse medo de ser visto por alguém.

O jardim estava colorido pelo tom azulado que vinha do céu. As luzes da cidade quase não atravessavam os vãos das árvores para chegarem até o casal. As flores estavam fechadas em botão, para se protegerem da baixa temperatura que fazia à noite. Algumas estátuas formavam sombras que dançavam no chão quando algum carro passava ao longe.

— Eu trouxe um pouco de café e biscoitos — Marieta tirou da bolsa uma pequena garrafa e um pacote de biscoitos salgados. — Assim posso me lembrar de como era gostoso fazer piquenique à noite. Lembra daquela vez que a gente foi para o interior, era Prudentópolis? Fizemos um piquenique inesquecível. Rimos bastante, fizemos fogueira...

— Até geleia de amora eu levei para você — interrompeu Fernando. — Era o seu sabor favorito, lembra?

Marieta ficou em silêncio. Na verdade, não se lembrava. E fazia tanto tempo que não comia geleia que chegara a esquecer quais eram os seus sabores preferidos.

Um pássaro pousou na árvore em frente do casal. Gorjeou alto.

— Uma coruja! — exclamou a senhora. Os olhos pareceram brilhar como a luz que vinha das estrelas.

— Você sempre quis ter uma coruja — comentou o esposo, observando os olhos brilhantes que os observavam da árvore.

— Eu tive uma coruja — disse Marieta com um tom um pouco nervoso.

— Desculpe — Fernando sentiu um leve arrepio. — A idade acabou com a minha memória...

Marieta sorriu e não deu importância ao que o marido dizia. Abriu a garrafa de café e despejou um pouco na tampa, usando-a como xícara. O vapor subiu no ar e adentrou suas narinas fazendo-a suspirar. Era bom o cheiro do café. Fernando tomou um gole e então abriu o pacote de biscoitos. Comeu um.

— Você se lembra daquela carta que eu te escrevi quando queria te pedir em namoro? — perguntou ele, depois de mastigar vagarosamente o biscoito.

— Como poderia me esquecer? — perguntou Marieta com um sorrisinho maroto no rosto. — Você era tímido demais para me pedir pessoalmente. Acho que tenho guardada aquela carta até hoje.

— É bom ter mesmo — Fernando brincou. — Assim demonstra o quanto você me ama.

— Como se algum dia você precisasse duvidar disso...

Fernando encarou os olhos cinzentos da esposa. Eram castanhos antes de a velhice chegar. Agora o castanho das íris estava se misturando com a cor cinzenta da catarata. Até brilhava com a luz que vinha da Lua.

— Não é ela que brilha, sabia? — perguntou Marieta apontando para o céu. — A Lua...

— Ela precisa do marido, não?

— Que marido, bem? — perguntou Marieta sem entender.

— Do Sol — respondeu Fernando encarando o céu. — Ela precisa do Sol para poder brilhar. O Sol e a Lua são um casal. Já rezava a lenda...

Marieta riu.

— Só você mesmo!

O silêncio, como uma cortina fria de névoa, desceu entre eles. Era quebrado apenas pelas mordidas que Fernando dava nos biscoitos. Continuavam a olhar para o céu, como se estivessem assistindo a um capítulo emocionante da novela favorita de Marieta, enquanto ele esperava para que o jogo de futebol começasse mais tarde. Mas não era nada disso. Queriam apenas olhar o céu, o luar, as estrelas... Antes que tivessem de ser separados.

Depois de tomar o café e comer os biscoitos, Fernando se aproximou lentamente da esposa. A mão esquerda dela estava sobre o banco de madeira em qual estavam sentados. Colocou a sua direita sobre a mão dela. Marieta fingiu não sentir, mas chegou um pouco mais perto. Como se fosse um susto, Fernando deu um beijo no rosto de Marieta, que retribuiu a ação com leve gritinho. Então se abraçaram e continuaram a encarar o céu magnífico que se estendia como um cobertor sobre eles.

— Faz tempo que a gente não briga — disse Fernando.

— Não temos tempo pra isso, querido — Marieta se sentiu aliviada por não brigar mais com Fernando. Quando amanhecesse eles estariam separados. Ninguém podia saber que ainda estavam juntos. Ninguém podia descobrir que os dois ainda se encontravam todas as noites. O porquê Marieta não sabia. Mas preferia não perguntar.

Algumas horas se estenderam de escuridão. Os carros na avenida, depois das árvores do jardim, começaram a passar com menos frequência e tudo pareceu ficar ainda mais escuro. A garrafa de café vazia estava no chão, perto dos pés de Fernando. O pacote de biscoito fora jogado no lixo por Marieta.

— E se eu morresse quando amanhecesse? — perguntou Fernando, sério.

— Eu morreria junto — respondeu Marieta, encarando o marido nos olhos. Eles também haviam perdido o castanho. As cores começaram a se tornar cinzas. — Não poderia viver sem você.

— Mas você já vive sem mim — ele comentou. — Durante o dia, se esqueceu?

— É claro que não esqueci. Mas gostaria que você nunca tivesse que partir quando o Sol nascesse.

— É necessário.

Marieta ficou quieta. Não queria perguntar por que era necessário. Para ela não fazia sentido. O seu marido. Aquele com quem passou mais de quarenta e cinco anos. Por que não poderia passar o dia com ele?

O seu primeiro dia com ele fora há tanto tempo que, se a julgar pela importância dos fatos, era surpreendente que Marieta ainda se lembrasse. Não tinha rugas no rosto, nem manchas nas mãos. O castanho dos olhos ainda era vivo. A franja em sua testa a deixava charmosa. Fernando tinha o cabelo preto, um olhar castanho que fazia alguns suspiros serem arrancados por onde passava. Mas ela fora a escolhida. E ele fora o escolhido dela.

Passaram por dias chuvosos juntos, por dias quentes de verão. Aquele dia na praia, onde o Jorge — filho mais velho — encontrou uma água-viva e acabou se queimando. Aquele dia nas montanhas, quando Carol — filha do meio — caiu entre as pedras e quebrou o dedão. O dia em que o Pedrinho, o caçula, quebrou a perna enquanto jogava futebol. Também foram ao casamento da Carol com aquele homem da Espanha. Ele falava tudo enrolado, pensava Marieta. O dia em que Pedrinho engravidou a namorada quando ainda tinha 18 anos e causou a maior dor de cabeça na família. O dia em que Jorge dissera que gostava de meninos e não de meninas — Fernando quase teve um ataque do coração, mas com o passar do tempo acabou se acostumando com a ideia. Aquela noite em que acabou a energia e nenhum dos filhos morava com eles. Aquela noite em que começaram a contar as histórias um para o outro, já que as crianças já tinham outras crianças para quem precisavam contar histórias. E também teve o velório... Enfim, eram muitos dias e noites juntos, sem precisarem esconder de ninguém. O que estava acontecendo então?

— Acho que aquela estátua ficaria melhor do outro lado do jardim — comentou Marieta apontando a imagem de pedra em frente do banco, quebrando o silêncio incômodo.

— Você pode dar essa ideia amanhã — disse Fernando em resposta, arrumando os óculos sobre o nariz enquanto, mais uma vez, o silêncio caía do manto escuro do céu.

— Tive uma ideia! — falou Marieta, levantando-se com um enorme sorriso no rosto. Pegou a pequena bolsa e agarrou a mão do marido. Sem entender, ele acompanhou a mulher até o outro lado do jardim, nas mesas de xadrez. — Vamos jogar.

— Você sempre odiou xadrez — Fernando sentou a uma mesa.

— E você sempre amou — Marieta sentou do outro lado. — Hoje vamos fazer o que você gosta.
A luz azulada vinda do céu fez com que as sombras do casal formassem uma figura sobre a mesa.
— Não temos peças... — Fernando pareceu desanimado.

— Imagine-as — disse Marieta sorrindo, apertando uma mão na outra.

O senhor encarou a esposa e então a mesa. Tentou. Mas era difícil imaginar as peças do xadrez. Não só as dele, mas as da esposa. E também todo o jogo. Mas, depois de um tempo de adaptação, começaram a partida. Marieta deu xeque-mate em Fernando cinco vezes em menos de trinta minutos. Tudo bem, ele a deixava ganhar, pois sabia como ela era competitiva e ficava zangada por perder.
Os dois jogaram até a Lua mudar de posição no céu e Fernando derrubar as peças de xadrez imaginárias e subir na mesa, encarando a esposa. Deu um longo beijo em seus lábios e disse:

— Eu te amo.

Marieta sorriu e disse um “Eu também” entre os dentes que faltavam. Fernando então a tomou pela mão e a conduziu em uma dança colorida pelo azul do céu e o prateado da Lua. A estátua no centro do jardim acompanhava a valsa com sua sombra se misturando às de Marieta e Fernando no chão. A senhora o abraçou forte e pensou:

— Eu sempre vou te amar.

Então o céu ficou mais escuro e começou a parecer mais azul. O azul escuro deu lugar a um claro e alguns raios alaranjados jorraram do horizonte. Fernando observou arregalando os olhos. Precisava partir.

— Não quero que você vá! — Marieta sentiu os olhos se encherem de lágrimas. — Fique comigo...
Então Fernando deu um beijo na testa da amada, arrumou mais uma vez os óculos que escorregaram pelo grande nariz e disse:

— Venho te ver à noite.

— Promete?

— Prometo.

— Jura?

— Juro.

— Ficarei te esperando.

— Eu virei correndo.

Os dois continuaram a dançar até não poder mais...

*

De longe, os enfermeiros da casa de repouso viam o anoitecer no lugar do amanhecer de Marieta. Precisavam chamá-la para dentro, mas ela estava entusiasmada com uma valsa consigo mesma que dava dó de interromper. Eles a deixaram dançar sua música, com quem estivesse dançando. Quando ficasse mais escuro a chamariam e a levariam para o seu quarto. Os outros idosos da casa não entendiam o tratamento privilegiado à Marieta. Talvez porque não ouviam mais a música. Ou não viam mais o luar.

Ou não tinham mais amores.


***
© 2013 by Emerson Machado.
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