Sussurro

Ao girar a chave na porta, senti um cheiro que conhecia bem. Maconha. Certamente era Caio, meu melhor amigo. Ele tinha a chave do apartamento, podia ir para lá sempre que sentisse vontade. Ou quando quisesse fumar sem precisar explicar sobre o cheiro aos pais.

Entrei devagar. Ele estava sentado no chão da sala, em frente à mesinha de centro, envolto em uma nuvem de fumaça, com garrafas de cerveja espalhadas ao seu redor.

Era bonito. O cabelo fora raspado, mas começara a crescer. A barba estava por aparar, odiava ter que fazê-la. Ou tinha apenas preguiça. Era magro, mas não se podia "contar suas costelas", como sempre afirmava. Por sorte, algumas das garrafas de cerveja eram Guinness, minha favorita.

— Pô — disse ele assim que percebeu que eu me aproximava, depois de ter fechado a porta. — Não sabia que ia chegar logo.

— Não fui à aula — respondi, sentando ao seu lado, pegando uma garrafa. — Hoje não estava afim... Valeu pela cerveja.

— Capaz — disse ele zombando do meu modo de falar, tentando adaptar o sotaque carioca ao pesado paranaense. Mesmo longe de Curitiba, nunca consegui perder vários vícios de linguagem e o costume do R puxado.

Capaz era o que eu dizia, às vezes, em vez de nada ou até mesmo quando estava surpreso.

— Capaz... — sorri. Abri a cerveja com dificuldade. Caio ficou observando e não quis ajudar. Conhecia o jeito dele. Tossi por uns trinta segundos e espalhei a fumaça no ar com uma das mãos. — Faz tempo que está aqui?

— Não muito — respondeu ele enrolando maconha numa folha fina que pegara em minha cozinha, que devia estar um caos, mas não quis conferir. — Comprei umas beras e vim. Faz meia-hora, mais ou menos.

Bera era outra palavra que ele tinha incorporado ao vocabulário apenas depois que me conheceu, há oito anos. Um jeito estranho de chamar cerveja.

— Nossa! — exclamei olhando para a bagunça ao nosso redor. — Faz meia-hora e você já conseguiu destruir minha casa?

Caio riu. Vê-lo assim me deixava bem. Por mais que ele tivesse se envolvido em muitos problemas durante a vida — como um com traficantes e até uma ex-namorada grávida que perdeu o bebê —, a gente se deu sempre muito bem. Apesar das conversas que me deixavam um pouco sem graça, como suas noitadas de sexo.

— Presente de aniversário — ele disse dando um leve tapa na minha coxa. Eu sorri e então tomei um gole da cerveja escura. Um pouco de espuma manchou meus lábios e eu os limpei com a língua.

— Achei que não fosse lembrar — falei, entre riso, mas não achei a frase engraçada.

— É claro que ia me lembrar — afirmou sério. — Por que pensou isso? Aposto que muitas pessoas lembraram.

— Algumas — não quis mencionar que recebera parabéns apenas das lojas em que eu mais comprava pela internet.

— Chatice — ele falou me dando um empurrãozinho. Os olhos vermelhos me encararam com um ar que já conhecia bem. Era a expressão que ele fazia quando pensava por isso eu gosto de você.

— Eu sei — respondi, como se ele tivesse me perguntado.

Nos encaramos então por alguns segundos.

Era estranho pensar que, de alguma maneira, aquela barba me excitava. Nunca tive vontade de beijá-lo, de transar com ele ou de... Tudo bem, já imaginara isso algumas vezes antes de dormir. Porém, o fato é que gostava muito dele como meu melhor amigo, não queria estragar isso.

Aliás, nunca me interessei por ninguém. Meu único namorado tinha sido um cara que conheci numa balada e durou pouco mais de duas semanas.

Caio sempre me zoou por isso.

Ele não podia se gabar: os relacionamentos dele sempre duraram uma ou duas noites. Mas pelo menos eu pegava alguém, dizia sempre que eu tentava jogar isso em sua cara. E estava certo.

Além do meu ex-namorado, nunca tive mais alguém. Saía, ia a bares e baladas, mas nunca tive vontade ou intenção de encontrar alguém para ficar.

Caio era diferente. Pegava umas cinco garotas sempre que saíamos juntos. Pegava... Há alguns meses a gente já não saía mais para festa alguma. Preferíamos ficar na Alameda, tomando cerveja, fumando maconha e rindo do nada.

— A gente podia fazer uma festa — Caio acendeu o fino com erva e soltou a fumaça no ar assim que terminou de falar.

— Não estamos fazendo uma? — perguntei com um sorrisinho maroto no rosto. Ele riu. Sempre ria do que eu falava, mesmo quando não tinha graça.

Assim que cheguei ao fim da garrafa de Guinness estava me sentindo um pouco mais quente. Essa cerveja sempre me embebedava mais rápido que as demais. Combinei um pouco da tontura com um trago no baseado de Caio. Puxei o ar com força e soltei a fumaça devagar. Minha garganta ardeu.

— Sua mãe ligou? — perguntou ele, aparentemente interessado.

— Não — respondi. Ela nunca me ligava. Desde que saí de casa. Uma vez ou outra eu entrava em contato para saber se ainda estava viva, mas havia muito que não o fazia.

— Daqui a pouco ela liga — Caio disse puxando mais um trago e tomando um copo de cerveja de uma vez. Abriu outra. O tom esperançoso sempre estava em sua voz. Era mágico.

— Você diz isso há sete anos e ela nunca ligou — falei, o tom pesado na voz, como se sentisse falta dela. Na verdade, devia sentir. Só não sabia explicar.

— Talvez ela espere um sinal de que possa.

Pela primeira vez nos sete anos fora de casa ele dissera isso. E tinha razão. Será que ela tinha medo de ligar e ser mal tratada? Resolvi não ligar. Em vez de pegar o telefone, peguei outra garrafa e abri bem rápido, tomando metade dela em segundos.

— Você está com sede — Caio virou os olhos vermelhos para mim, um sorriso leve no rosto.

— E você está chapado — brinquei, mesmo sendo verdade.

Ele riu. Olhou para os lados, como se procurasse alguém. Então encostou a mão na minha coxa, me afastei. Senti vontade de ficar mais perto, mas não queria ser responsável pelo que poderia acontecer a seguir. Caio sempre ficava sério nessas horas. E eu sentia que talvez não fosse um bom presente de aniversário.

O baseado chegou ao fim, Caio me encarou. O rosto corou.

— Não quero mais mentir — ele disse, virando o olhar para baixo.

Cheguei mais perto. A conversa me interessava.

— Não minta — aconselhei, não sabendo direito o que falar.

Caio me encarou novamente, os olhos molhados. Estávamos bem próximos. Então ele deixou o copo de cerveja na mesa de centro, à nossa frente, e me beijou. A garrafa de cerveja rolou entre meus dedos e fez um som estridente quando tocou o piso com força.

Senti seus lábios tocando os meus.

Eram macios.

O coração bateu forte, como se fosse saltar do peito.

Nossos corpos se colaram, sua pele queimava na minha. Nossas camisetas foram ao chão, em cima do líquido escuro e amargo da Guinness que banhava o piso gelado. Ele se deitou sobre mim, a respiração cada vez mais ofegante. As mãos abaixaram minha calça e os olhos se abriram de repente. Em um ímpeto, me puxou para que ficássemos cara a cara.

Não era mais meu melhor amigo.

Era apenas Caio.

E Caio, segundos antes de terminar, gemeu alto e se afastaria. Mas, sem saber ainda o porquê, o segurei. Ele mirou os meus olhos profundamente, como se não pudesse continuar.

— Quero você dentro de mim — ofeguei, com as mãos em suas costas, o pressionando contra mim. Os braços dele me envolveram de maneira aconchegante, me apertando forte.

Então gemeu alto.

Aos poucos, foi diminuindo a pressão, se deitando sobre o meu peito. Estávamos suados, tentando retomar nossos fôlegos. Senti os pequenos fios de cabelo que nasciam arranhando minha pele, mas não doeu. Sua barba também se grudou em mim e, no fundo, desejei que pudéssemos ficar ali para sempre.

— Eu te amo — declarou.

Fiquei em silêncio e milhares de coisas explodiram em minha mente. Meu aniversário, minha mãe, o que tínhamos acabado de fazer.

A cerveja no chão molhou minhas costas, estava gelada, mas eu não me incomodei. Caio estava sobre mim e o calor de seu corpo me mantinha quente. Continuei em silêncio por um tempo que não consegui determinar. Percebi enfim que ele dormira. A respiração voltara ao normal, não suava mais.

Era apenas o seu corpo sobre o meu.

— Eu também te amo — sussurrei, não queria que ele ouvisse.


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© 2013 by Emerson Machado.
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