Carta

Escrevo pra dizer que está tudo acabado entre nós.

Não consigo mais suportar a dor desde que você partiu. Sei que prometemos continuar nos amando, que quando voltasse continuaríamos de onde tínhamos parado, mas já faz dois anos! Não sei onde você esteve ou com quem andou.

Ou se já está amando outro alguém.

Não sei se passou frio, ou se o verão de lá chegava a ser quente como o daqui. Você ficou de mandar notícias, lembra? E nem e-mails respondeu mais. Fiquei à espera das respostas durante semanas... O que aconteceu?

Finalmente comprou uma casa onde quer que estivesse? Arranjou vários amigos? Estava trabalhando demais para acessar sua caixa de entrada? E o que aconteceu com os presentes que enviaria pelos Correios? Não conseguiu comprá-los?

Esses dias encontrei aquela nossa foto. A que estamos abraçados naquele barzinho que só fomos uma vez. Sempre prometemos voltar lá... Pareço feliz na foto. E você também. Sabe o motivo de nunca mais termos voltado àquele lugar?

Ah, lembrei.

Você se ocupou demais, enquanto se preparava para partir.

Poderia ter me levado junto... Por que não levou? Talvez porque eu sempre fui um fardo pesado demais para se carregar... Mas um convite seria educado de sua parte.

Má ideia, provavelmente.

Não!

Má ideia, com certeza.

Eu não recusaria o convite como você talvez esperasse...

Além da foto, encontrei naquela minha caixa de sapatos velha a primeira carta que me escreveu. Você nunca foi de expressar o que realmente estava sentindo... Ou então não sentia nada.

Antes de lhe conhecer, acreditava que não expressar sentimentos era o mesmo que não tê-los. Mas então você apareceu e me fez deixar várias coisas em que acreditava de lado. Até dizia aos meus amigos que o seu "jeito frio" era da sua personalidade, que no fundo era um amor, um anjo.

E, por algum tempo, foi... O meu anjo.

Por onde você esteve todo esse tempo?

Aqueles cartões postais que eu tanto queria receber da sua viagem nunca vieram. Chegou a mandá-los? Creio que não, mas não custa nada perguntar... E, quem sabe, você nunca leia essa carta, tudo isso que estou escrevendo como se fosse recebê-la algum dia, e ficarei mais uma vez sem respostas.

Deixei minhas palavras no esconderijo da nossa chave de emergência, atrás do vaso de flores no corredor, porque não sabia o seu novo endereço para poder enviá-las.

Ninguém mexe no vaso de flores do corredor. Aposto que esta carta fora encontrada lá.

Ela ficou esperando por você.

Quem não está mais à sua espera sou eu.

Deixei a nossa casa. Precisava continuar vivendo e não conseguia mais passar tanto tempo a aguardar sua volta, com tanta angústia.

Doía muito a cada tocar do telefone. Corria esperando ouvir a sua voz, mas era sempre o porteiro. Machucava receber meus amigos — que na verdade eram "nossos" amigos até me deixar — e ouvir perguntarem como você estava, onde estava... E mentir descaradamente que estava bem, que me ligava toda semana.

E era estranho viajar sozinho para os lugares que você tanto queria conhecer e não lhe achar em nenhum deles.

Ainda menti para todos que viajei para lhe encontrar. Mais tarde, passei horas na frente do computador editando as fotos para copiar você de nossas antigas imagens juntos e colar do meu lado em cada uma das novas fotografias. Nossos amigos diziam que você estava ótima em muitas delas! Fingiam acreditar que realmente estive naqueles lugares lindos ao seu lado... E eu fingia acreditar que os sorrisos deles me enganavam.

Muitas vezes eu preparei aquela lasanha à bolonhesa que você tanto adorava — ou era mentira? — e colocava dois pratos na mesa, acendia algumas velas e passava horas em um monólogo, a brincar que estava jantando ao seu lado, e conversava com você. Depois de um tempo, isso perdeu a graça. Você não falava tanto quanto antigamente.

Nem sorria.

Hoje em dia eu não escuto mais a sua voz em minha mente ou vejo o seu sorriso.

Você não deu sinal de vida. Não deu um telefonema para falar que demoraria tanto para voltar. Nem uma carta escrita a lápis, às pressas, dizendo que não me queria mais. Nem um e-mail, em uma rara ocasião expressando o quanto sentiu saudades, assim como eu senti.

E caso um dia você tenha voltado, e encontrou esta carta no esconderijo da nossa chave, atrás do vaso de flores no corredor, significa que você continua livre.

Continua sem mim.

Eu?

Fui sentir a sua falta em outro lugar.


***

© 2012 by Emerson Machado.
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Comentários

  1. Ola Emerson recebi indicação do seu blog hoje e estou adorando...
    Também venho aplicando essa arte. Vamos manter contato ? Abraços!!

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