Queer

Daniel acordou aturdido.

Os raios do Sol iluminavam o rosto fino, de pele bonita. O braço esquerdo estava enfaixado, doía. Estava nu. O tórax era musculoso, a pele branca parecia de longe um papel camurça. Um jovem bronzeado e de cabelo castanho dormia ao seu lado, era Miguel.

— Argh! — gemeu o ferido.

— Shh... — Miguel acordou. — Eu vou cuidar de você.

— Não precisa. Eu que deveria cuidar de você! — gemendo de dor, Daniel sentou na beirada da cama, interrompendo o abraço singelo de Miguel.

— Você fez o que pôde — disse ele colocando a mão no ombro do braço ferido e sentando ao seu lado. — É uma questão de tempo até que Ananda me encontre. E quando isso acontecer... Bem... Você sabe.

— Eu vou conseguir aquele amuleto! — Os olhos do casal se encontraram. — Eu vou te salvar porque... Eu te amo, Miguel.

Beijaram-se.

Daniel pensava que de todos os beijos que dera na vida, o de Miguel tinha o melhor sabor. Não era molhado, mas também não era seco. A língua dele era macia, mas rígida ao mesmo tempo. A pele do rosto, com a barba recentemente feita, tinha um dos melhores carinhos que o jovem ferido já recebera. As mãos, um pouco ásperas, eram o que um precisava do outro para ter certeza de que ali existia um amor verdadeiro, de que Daniel precisava salvá-lo de Ananda, a bruxa que o perseguia obsessivamente.

— Você não pode mais me salvar — disse Miguel. — Acabou, Dan. Acabou.

— Não acabou! — indagou. — Nunca acaba! Por que está insistindo nisso? Não acha que eu seja capaz? Você não confia em mim?

— Não é isso... — Miguel hesitou. — É que você não pode mais.

Daniel levantou da cama nervoso, mas uma dor profunda pareceu dilacerar seu braço esquerdo. Miguel saltou da cama e segurou os ombros do companheiro.

— Volte pra cama... — disse ele com aquela voz que fazia o sangue de Dan esquentar. — Você foi atingido por um feitiço muito poderoso. Precisa descansar, se recuperar.

— É, mas enquanto estamos aqui deitados, Ananda está lá fora! Procurando por você! Pronta pra acabar com a sua vida.

Assim que se sentaram, o jovem de cabelos castanhos soprou no ferimento do outro, que sentiu uma estranha melhora.

— Tudo bem, Dan — começou Miguel —, você quer a verdade? Quer saber por que acho que tudo acabou? Você é um Queer, Dan! Esse é o problema.

Daniel olhou para o amado atônito.

— Um... Queer?

— Sim. Por ironia ou coincidência, é a palavra usada pelo Mundo da Magia para impuro.

— E sou impuro, um Queer, por...?

— Você dormiu comigo.

— E isso me faz um Queer? Eu amar você me faz impuro?

O jovem ficou em silêncio e baixou o olhar verde para os lençóis.

— Vou te mostrar uma coisa — disse ele cabisbaixo.

Miguel fechou os olhos e envolto a pequenas faíscas douradas, ao lado da cama, surgiu um livro. A capa era preta, as páginas — inúmeras páginas — amareladas, o marca-página feito com uma fita vermelha.

— Uma bíblia? — perguntou Dan sem entender.

Ele lançou um olhar ao livro, que se abriu. Com alguns movimentos com a cabeça as páginas foram virando, até pararem, não muito longe de Gênesis.

— Levítico. Capítulo vinte. Versículo treze. Leia.

Daniel se aproximou um pouco do livro por causa da miopia e começou:

— Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, cometerão coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a sua culpa.

— Toevah.

— Toevah?

— Referente à coisa abominável — explicou Miguel triste. — Ou em grego Bdelygma. Ambas essas palavras significam impureza.

— Você, mais do que ninguém, devia saber que esse livro foi escrito por algum homofóbico qualquer! Esse livro não caiu pronto do céu! É demais amar alguém?! Responda, Miguel. Você se considera um Queer por me amar? Vou ficar decepcionado se me disser que se considera impuro por me amar.

— Não, não, Dan... Não estamos aqui para discutir se a bíblia está certa ou errada. Não cabe a nós julgarmos isso. A bíblia pode ter sido escrita por algum qualquer, sim, mas... A minha maldição não.

Daniel desfez a expressão nervosa.

— O que quer dizer com... — antes que terminasse de formular a pergunta, Miguel retornou o olhar para a bíblia flutuando ao lado da cama, que começou a arrancar as próprias páginas e, com outro jorrar de faíscas douradas, se tornou um livro de capa marrom, com um rubi no meio. Havia imagens em texturas sobre a capa feita de couro.

O livro se abriu e pode-se notar que as páginas, também amareladas, pareciam ter sido queimadas. Os movimentos de cabeça de Miguel faziam as folhas virarem, mas ele parou assim que chegou a uma página que tinha a figura de um amuleto redondo repleto de pedras preciosas, com as mais variadas cores e desenhos abstratos.

— É grego — informou Miguel quando percebeu que Daniel tentava ler. — Quem quer que tenha conjurado esta maldição disse que qualquer ser impuro não poderia tocar o amuleto. Só uma pessoa pura conseguiria. Pessoa pura, segundo quem me amaldiçoou, são aquelas boas, que nunca cometeram maldade, tiveram inveja ou mentiram. Ou... mataram. Basicamente, uma pessoa perfeita, segundo a bíblia. Uma verdadeira pessoa pura.

— Você não me respondeu... — interrompeu Daniel a bela explicação religiosa. — Você se considera impuro por me amar?

Miguel o encarou com um pesar na expressão facial... Parecia triste.

— Amar você me faz sentir perfeito...

— Mas não puro?

Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos. Ele virou o olhar para o livro que se fechou e desapareceu em meio a faíscas douradas.

— Escute — Dan continuou. — O amor nos faz puros, ok? Não é ele o sentimento mais puro que existe? Não é o amor que pode vencer tudo? Não foi isso que vimos em Harry Potter?

— Mas nós não estamos em Harry Potter! — Miguel gritou irritado. — Isso aqui nem parece Harry Potter! Nós não somos personagens de um livro escrito por alguém que acha que o Mundo da Magia é desse jeito. A vida real é bem pior! Você não sabe tudo que eu tive que passar...

Lágrimas escorreram pelo rosto de Miguel e Dan o abraçou. Sentiu a pele molhada e seus soluços o fizeram encharcar os olhos também.

— Eu vou pegar aquele amuleto — disse o jovem ferido. — Não se preocupe.

— Você sabe que não tem como — Miguel estava com medo. Era visível.

— Confie em mim.

— Por que tem tanta certeza? Vai sair do quarto, pegar o metrô até o museu e roubar o amuleto? Tentar tocá-lo pode te matar!

— Se vista.

— Aonde vamos? — O jovem observou Dan sorrir para responder:

— Pegar o metrô.

***

Daniel nunca foi acostumado em ir a museus. Não lembrava como o lugar tinha um silêncio doentio, quase que pesado, sombrio. Pessoas quietas nos cantos observando obras mortas que tinha o intuito de representar a vida.

— Estamos chamando atenção demais — comentou Miguel soltando a mão de Daniel.

— Não deveria — Dan afirmou. — Segure a minha mão. Não vou te deixar.

O jovem, com o ferimento escondido pelo braço da jaqueta preta que usava, observou um sorriso no rosto do companheiro. Não via aquilo há semanas. Achou mágico. A coisa mais mágica que já tinha visto, pois o fazia feliz.

— É aqui — informou Miguel quando chegaram frente a uma sala redonda, cheia de quadros, estátuas e armaduras. — Quando entrarmos, por causa da minha presença, a parede à nossa frente se moverá e revelará o amuleto.

— Então eu o pego — completou o outro.

— Daniel — Miguel demonstrou preocupação, muita preocupação —, segundo o livro, eu não posso tocar o amuleto. Só quem pode é a dona do meu coração. Você pode morrer e...

— Não pense nisso.

— E se isso acontecer...

— Eu disse pra não pensar nisso!

— Se isso acontecer, quero que saiba que irei à Ananda e me entregarei. É a mim que ela quer, não você.

Os dois se beijaram, fazendo com que muitos pescoços dentro do cômodo se virassem para eles. Alguns observavam com expressão chocada. Outros com naturalidade. Alguns com expressão nervosa.

— Confie em mim.

Miguel sorriu. Mesmo não querendo.

***

Muitos civis observavam as obras da sala redonda que só tinha uma porta e pouca luz natural. E, como Miguel disse, assim que entraram, a parede em sua frente se moveu e o amuleto brilhou. Era um objeto redondo repleto de cores, parecia que o interior era recheado com safiras, esmeraldas, rubis e diamantes. Ficou flutuando mais ou menos 2,5m acima do piso frio reluzente.

Mas eles não eram os únicos visitantes ilustres.

— Sabia que uma hora ou outra você viria, só não sabia que viria sozinho. Se eu me lembro bem, a profecia diz que você não pode tocar o amuleto. E... Oh, espere... Você trouxe um amiguinho?

Uma mulher entrou logo atrás do casal. Tinha cabelos muito negros e lisos. Os olhos eram tão azuis que, à primeira vista, pareceram pedras de safira. A pele negra parecia brilhar. Usava uma roupa preta colada ao corpo esbelto que tinha.

— Ananda — suspirou Miguel.

— Miguel — ela disse e então levantou a mão e todos os visitantes, com exceção de Daniel, foram atingidos por um brilho azul e caíram desacordados.

— MIGUEL! — Dan gritou caindo sobre o corpo dele. — O que você fez com ele? Que porra...

— Esses são modos de tratar uma dama? — Ananda sorriu. A porta à costas dela se fechou num estalo. — A conversa agora é entre você e eu, bonitinho — ela começou a andar em direção ao jovem. — O que você faz com ele?

— Eu o amo!

— Você... o ama? — Ananda começou a rir. — Quer dizer que vocês são gays? Uma reviravolta... Ok, vamos às regras.

Dan olhou para ela cerrando os dentes. Ela fez com que várias faíscas azuis materializassem um livro de capa preta e inúmeras páginas amareladas.

— Eu já sei o que tem na bíblia! — gritou. — E isso não vai me fazer desistir de lutar pelo que acredito, pelo que eu amo.

Ananda parou de rir e o encarou. De repente, a bíblia pegou fogo e seus olhos reluziram as chamas.

— Então você quer morrer, Queer?

— Quem é você para falar essa palavra para mim? — Daniel forçou as pálpebras para baixo com força, encarando Ananda. — Como se fosse a melhor pessoa do mundo...

— Sim, eu sou.

— Não! Você não passa de uma idiota atrás de algo que nem seu cérebro minúsculo, se ele existir, é capaz de entender!

Ananda sorriu e Dan sentiu algo segurá-lo pelo pescoço. Foi levantando no ar. Ele gemia. Ela andava em direção ao amuleto.

— Dizem que o amor verdadeiro é a coisa mais poderosa do mundo — começou ela. — Você acredita nisso?

Em meio a gemidos, Dan tentou responder:

— E... por que não... acreditaria? Quando eu... estava perdido, ele me salvou. Quando eu precisei, o amor... estava comigo.

— E você se acha puro o bastante para tentar pegar o amuleto? Acha que o amor o faz tão puro a ponto de tentar essa sorte? — Dan observou o amuleto flutuando a poucos centímetros de sua cabeça. Suor escorreu da sua testa e molhou sua camiseta. — Sabe o que acontece quando um Queer toca no amuleto?

Daniel sentiu como se fosse um soco no estômago e outro no rosto. Sangue escorreu de seu nariz.

— Responda! — gritou Ananda e Dan foi golpeado mais três vezes por algo que não se podia ver, mas ele sorriu.

— Sabe, Ananda — começou o jovem —, eu tenho... pena de você. Por acaso, você já amou... alguém na sua vida? Por acaso, você sabe o que... é o amor?

— Uma coisa que os humanos inventaram para poderem tirar proveito dos outros sem se sentirem culpados! — respondeu ela com ferocidade. — E isso foi incorporado ao Mundo da Magia porque se deixaram corromper! Essa história de amor não existe...

Dan sorriu, então começou a rir.

— Realmente — disse ele —, alguém foi corrompido... Você.

— Fui corrompida? — Ananda fez com que Dan fosse golpeado mais uma vez. Mais sangue escorreu de seu nariz. — Olha quem está falando... Você ama um homem! Acha isso normal? Acha que isso não te faz ser impuro? Eu posso não ter amado ninguém, mas você não ama... Você está enganando a si mesmo. Faz isso consigo mesmo pra chamar atenção. Era uma criança reprimida na infância?

— Eu... não escolhi isso! — gritou Dan sentindo o gosto do próprio sangue na boca. — O amor verdadeiro... nos escolhe. Mas você, sim, escolheu... ser quem é. Uma pessoa... vazia, sem coração, querendo um amuleto... sem nem saber para o que ele serve. Mas eu vou te contar uma coisa... Eu sou... mais poderoso que você.

Ananda gargalhou.

— Você? — o desdém soou alto. — Mais poderoso que eu? Você nem pertence ao Mundo da Magia! Não passa de um Queer, um impuro!

— Não, Ananda... — Dan tossiu, logo depois sorriu. — Eu tenho o amor em mim. E, sim, é a coisa mais poderosa do mundo!

Ananda cuspiu em Daniel e com um movimento brusco quase o encostou ao amuleto.

— DEIXE-O EM PAZ! — Era a voz de Miguel. Ananda, com um brilho dourado, foi jogada na parede ao lado da porta de entrada e saída. Daniel caiu no piso frio, ensanguentado. — Fuja, Dan! Fuja!

Mas Daniel continuou parado, observando Ananda se levantar.

— Você sabe que não pode me matar — disse ela. — Só a dona do seu coração pode, com o amuleto, lembra?

— Daniel é o dono do meu coração! — vociferou Miguel. — E é puro!

— É mesmo? — Ananda riu. — Então peça para ele pegar o amuleto. Vamos lá! Vamos brincar. — Miguel ficou calado. — Está vendo? Nem você acredita!

O silêncio caiu sobre eles como uma pedra.

— Miguel? — cochichou Dan.

O jovem mago virou para Daniel devagar. Chorava.

— Vamos acabar logo com isso — continuou Ananda. — Eu mato você, Miguel, e então qualquer um pode pegar o amuleto. É só disso que eu preciso. Prometo deixar até o bonitinho vivo.

Miguel continuou olhando para o amado. As lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Não! — Dan deduziu o que ele queria fazer. — Miguel, não! — Limpou um pouco do sangue no rosto. — Você não precisa fazer isso!

— Eu te amo — disse o mago. — E não vou deixar você morrer. Eu vou cuidar de você, lembra?

Dan chorou sem perceber. Antes que dissesse mais alguma coisa, viu Ananda levantar um braço e fazê-lo brilhar.

— CUIDADO! — gritou o jovem ensanguentado.

O mago ergueu um dos braços e um feixe de luz se formou no meio do cômodo. Ele e Ananda pareciam conectados por luzes verdes, azuis, vermelhas e amarelas. Miguel gemeu e Daniel ficou sem saber o que fazer.

Ananda sorria. Miguel sofria para concentrar tanta magia. Mas ele voltou o olhar para Daniel. Ainda chorava. Fez um sinal negativo com a cabeça e o jovem percebeu que devia agir.

— NÃO! — antes que o mago se sacrificasse, Daniel correu e pulou.

O amuleto estava próximo. Não houve um segundo de hesitação. Durante o salto, ele esticou o braço. As luzes dos feitiços às suas costas. O cabelo esvoaçando com os impactos dos feixes de luz. Gotas de sangue de seu nariz flutuando no ar. Então ele tocou o amuleto.

Tocou o amuleto.

Ele simplesmente o tocou.


***

© 2011 by Emerson Machado.
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Comentários

  1. EL AMOR VERDADERO MUEVE MONTAÑAS Y DESVIA RÍOS ,NO AHÍ EN EL MUNDO ALGUNA FUERZA MÁS PODEROSA QUE EL AMOR ,Y TAMPOCO NADA, PERO NADA LO LIMITA

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  2. Adorei o texto!
    Muito bonito, criativo e fazendo muitas críticas a preconceitos e hipocrisias que existem em nossa sociedade.

    Parabéns pelo blog!

    Beijos

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  3. Obrigado, Luiza!
    Um prazer ter seu comentário aqui.
    Espero que este conto faça as pessoas pensarem... Coisa que a maioria está precisando muito ultimamente.

    Continue aparecendo! Você é muito bem-vinda!

    Beijos.

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  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  5. Como assim a história para logo nesse ponto?!
    Uau! Comecei meio perdido, tentando localizar em que mundo
    eu estava... Assim que descobri, o achei incrível.
    História criativa, cativante e muito bem contada.
    Parabén, Emer.

    Adorei a sacada de deixar o final pro leitor concluir por si só.

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  6. Seu conto é incrível Emer. Sabemos que existe muito preconceito, mas um dia espero que isso acabe e de ambas as partes, espero que um dia os religiosos respeitem as ideias dos homossexuais assim como venham a respeitar o forma como os religiosos pensam, por que cada um tem sua forma de pensar e espero que seja logo e sem agressão.

    Beijos seu lindo! Fê :*

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